quinta-feira, 2 de novembro de 2006

domingo, 17 de setembro de 2006


E S P E C I A L
Vale
do Rio Doce

Íntegra do edital de licitação da Companhia Vale do Rio Doce


Brasília 06/03/97
Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social - BNDES

Programa Nacional de Desestatização - PND

Edital N° PND-01-97/CVRD

Alienação de Ações Ordinárias e Preferenciais Nominativas do Capital Social da Companhia Vale do Rio Doce, de titularidade da UNIÃO

O BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL - BNDES, no uso das atribuições que lhe foram conferidas pelo CONSELHO NACIONAL DE DESESTATIZAÇÃO através da Resolução CND n° 14/95, de 27 de junho de 1995, em cumprimento e para efeito do disposto no Artigo 12 da Lei n° 8.031, de 12 de abril de 1990, com a nova redação dada pelo Artigo 1° da Medida Privisória n° 1.481- 46, de 14 de fevereiro de 1997, e no Artigo 28 do Decreto n° 1.204, de 29 de julho de 1994, e, ainda em conformidade com a Resolução CND n° 02/97, de 05 de março de 1997, a Lei n° 8.987, de 13 de fevereiro de 1995, e os Artigos 27, 28 e 29 da Lei n° 9.074, de 7 de julho de 1995, pelo presente EDITAL e do acordo com as suas disposições, torna públicas as condições de desestatização da Companhia Vale do Rio Doce, mediante alienação de ações ordinárias e preferenciais nominativas do se ucapital social. Os procedimentos relativos à alienação das ações regular-se-ão por este EDITAL, pelo PROSPECTO e pelos atos normativos expedidos pelo CONSELHO NACIONAL DE DESESTATIZAÇÃO.

ÍNDICE

CAPÍTULO 1 - Esclarecimentos preliminares

1.1 Definições e Abreviações
1.2 Introdução
1.3 Disciplina Jurídica

1.3.1. Legislação Básica do PROCESSO
1.3.2. Inclusão da CVRD no PND
1.3.3. Justificativa para a Desestatização
1.3.4. Destinação Legal dos Recursos Auferidos com a alienação
1.3.5. Restrições à Participação no PROCESSO Aplicáveis a Entidades do Setor
Público
1.3.6. Restrições à Participação no PROCESSO Aplicáveis a Entidades de Previdência
1.4. Consultores Independentes
1.5. AUDITORES DO PROCESSO
1.6. PROSPECTO
1.7. Acesso à SALA DE INFORMAÇÕES e às VISITAS
1.8. Continuidade do Processo de Informação
1.9. Anúncio de Encerramento

CAPÍTULO 2 - OBJETO, PREÇO E CONDIÇÕES DE ALIENAÇÃO DAS AÇÕES

2.1. Objeto do EDITAL
2.1.1. Alienação de Ações
2.1.2. Outorga de Concessão
2.2 LEILÃO
2.2.1. Forma e Quantidade
2.2.2. Preço das Ações Objeto do LEILÃO
2.2.2.1. Aprovação do Preço Mínimo Pela UNIÃO
2.2.3. Adesão dos ACIONISTAS MINORITÁRIOS DA CVRD
2.2.4. Condições do LEILÃO
2.2.5. Participação no LEILÃO
2.2.5.1. Regras Gerais de Participação na SPE
2.2.5.2. Regras sobre Participação Conjunta na SPE
2.2.5.3. Regras sobre Participação Individual na SPE
2.2.5.4. Regras sobre Participação Estrangeira na SPE
2.2.6. Classificação dos ACIONISTAS DA SPE
2.2.7. Representação no LEILÃO e CORRETAGEM
2.2.8. PRÉ-IDENTIFICAÇÃO
2.2.8.1. Documentos para a PRÉ-QUALIFICAÇÃO
2.2.8.1.1. Prova de Capacidade Financeira
2.2.8.1.2. Prova da Capacidade Técnico-Ferroviária
2.2.8.2. Apresentação e Análise de Documentos
2.2.8.3. Devulgação dos Resultados da PRÉ-IDENTIFICAÇÃO
2.2.9. Emolumentos do SENN e da CLC
2.2.10. Identificação dos Adquirentes
2.2.11. Liquidação Financeira
2.2.12. Formalização
2.2.13. Irevogabilidade e Irretratabilidade
2.3. OFERTA AOS EMPREGADOS
2.3.1. Forma e Quantidade
2.3.2. Preço das Ações Objeto da oferta aos empregados
2.3.3. Habilitação
2.3.4. Limites de Compra
2.3.5. Destinação das Sobras
2.3.6. Prazo
2.3.7. Reserva de Ações
2.3.8. Participação dos EMPREGADOS no Capital Social da SPE
2.3.9. Liquidação Financeira
2.4. DISTRIBUIÇAO PÚBLICA DAS AÇÕES REMANESCENTES NO FUNDO

CAPÍTULO 3 - OBRIGAÇÕES E DIREITOS DA UNIÃO

3.1. OBRIGAÇÃO DA UNIÃO
3.2. Direitos da UNIÃO
3.2.1. Direitos Decorrentes da AÇÃO DE CLASSE ESPECIAL ("GOLDEN
SHARE") DA CVRD
3.2.2. Direitos Decorrentes da AÇÃO PREFERENCIAL DE CLASSE "A"
("GOLDEN SHARE") DA SPE
3.2.3. Não Responsabilidade por Insubsistências Ativas e Superveniênciais Passivas
3.2.4. Dividendos
3.2.5. Arbitragem pela BNDESPAR

CAPÍTULO 4 - OBRIGAÇÕES DOS ADQUIRENTES DE AÇÕES DE EMISSÃO DA CVRD

4.1. Obrigações da SPE Relativas aos CONTRATOS DE CONCESSÃO
4.2. Obrigações Especiais da SPE e de seus Acionistas

CAPÍTULO 5 - AJUSTES PRÉVIOS

5.1. Alteração Estatutária
5.2. Outros Ajustes

CAPÍTULO 6 - INFORMAÇÕES SOBRE A CVRD

6.1. Introduçatilde;o
6.2. História da CVRD
6.3. Estatuto Social
6.4. Capital e Ações
6.5. Negócios da CVRD
6.5.1. Minério de Ferro e Pelotas
6.5.2. Manganês
6.5.3. Ouro
6.5.4. Cobre e Prata
6.5.5. Caulim
6.5.6. Potássio
6.5.7. Transporte
6.5.7.1. Transporte Ferroviário
6.5.7.2. Navegação
6.5.8. Bauxita, Alumina e Alumínio
6.5.8.1. Mineração de Bauxita
6.5.8.2. Alumina
6.5.8.3. Alumínio
6.5.9. Produtos de Aço e Ferro-Liga
6.5.10. Celulose, Papel e Reflorestamento
6.5.11. Projetos de Energia Elétrica
6.6. Empresas Controladas
6.7. Principais Empresas Coligadas
6.8. VALIA
6.8.1. Patrocinadoras e Planos de Benefício

CAPíTULO 7 - ASPECTOS FINANCEIROS DA CVRD

7.1. Demonstrativos Financeiros
7.2. Perfil de Endividamento
7.2.1. Observações sobre as Demonstrações dos Empresários e Financiamentos
7.2.2. Endividamento por Empréstimos e Financiamentos da CVRD nos últimos cincos anos
7.3. Análise dos Investimentos
7.3.1. Empresas Controladas
7.3.2. Empresas Coligadas
7.4. Aportes de Recursos da UNIÃO
7.5. Dividendos Pagos pela CVRD À UNIÃO
7.6. Garantias Prestadas pela UNIÃO
7.6.1. Contratos Celebrados pela CVRD
7.6.2. Contrato Celebrado pela Alumina do Norte do Brasil S.A.
7.6.3. Contratos Celebrados pela Alumínio Brasileiro S.A.

CAPÍTULO 8 - SUMÁRIO DOS ESTUDOS DE AVALIAÇÃO DA CVRD E JUSTIFICATIVA DE PREÇO

8.1. Avaliação Preparada Pelos Consultores
8.1.1. Cálculo do Valor Econômico da CVRD
8.1.2. Metodologia Geral de Avaliação
8.1.3. Resultados da Avaliação da CVRD
8.2. Justificativa do Preço

CAPÍTULO 9 - INFORMAÇÕES ADICIONAIS E CRONOGRAMA

9.1. Avisos e Comunicações
9.2. Fatos Supervenientes
9.3. Aceitação Tácita e Incondicional
9.4. Cronograma

Realidade Virtual - Datilografado/sem data



Considerações sobre a Realidade Virtual


Laymert Garcia dos Santos


Esta mesa sobre Realidade Virtual se inscreve num seminário que tenta pensar a sociologia no horizonte do século XXI. Para tentar ser fiel a ela, e ao seminário, creio que talvez fosse preciso invocar a sociologia da tecnologia, isto é, a sociedade do universo das máquinas que intermedeiam as relações dos homens contemporâneos entre si e com a natureza, universo tão abrangente e presente que chegou a ser chamado de segunda natureza. Mas para indagar como a sociologia da tecnologia pode abordar a Realidade Virtual no horizonte do século XXI, talvez seja melhor começar perguntando se o aparecimento de tal realidade tecnológica não afeta a própria noção de horizonte. Antes mesmo que uma disciplina procure compreender essa realidade no campo do saber, parece-me que deveríamos tentar como a Realidade Virtual irrompe na realidade, deslocando horizontes.


Todos sabem que a Realidade Virtual é um resultado, já não tão experimental, da interação homem-computador. Como diz John Walker: "Estamos no limiar da próxima revolução na interação usuário computador: uma tecnologia que levará o usuário através da tela para um mundo "dentro" do computador, um mundo no qual o usuário pode interagir com objetos tridimensionais cuja fidelidade vai aumentar a medida em que cresce a potência de computação e progride a tecnologia de visualização. Esse mundo virtual pode ser tudo o que o designer fizer".


A realidade virtual é, portanto, a geração de um mundo a partir de uma relação homem máquina. Um mundo criado artificialmente que o usuário, depois, pode "habitar". No início, apenas mentalmente... E visualmente; mas a meta é envolver todos os sentidos -- como na relação sexual virtual que, há dois ou três anos, uniu Timothy Leary e uma japonesa num coito eletrônico, em que Thimothy se encontrava na Califórnia e sua parceira em Tóquio. A meta é permitir que nesse mundo criado artificialmente se possa gozar, sofrer, amar, sonhar, além de pensar. Um mundo alternativo.


O Mundo de Mariko Ito, de 32 anos, moradora de Tóquio, usuária de Habitat, essa cidade japonesa de 10 mil habitantes, que não se encontra no mapa, porque é uma cidade virtual fabricada pela Fujitsu e lançada na rede Nifty-Serve, em 1990. Makito Ito "vai" ao Habitat ciberespacial, por uma ou duas horas, todos os dias, porque, diz ela é "fantástico. Lá posso ser outra pessoa". Lá Makito pode escolher sua aparência, sua roupa e seu sexo, optando entre 1.100 rostos possíveis, depois de ter-se registrado em avatar, ou residente.


Atravessando o espelho da tela, e entrando, do outro lado, no mundo ciberespacial, Makito torna-se um avatar, isto é, uma reencarnação, ou uma metamorfose. Parece ficção, mas é realidade virtual. Com que parâmetros, então considerar tudo isso?


*** *** ***

A ficção científica pode ser de grande valia para entender o que se passa no mundo da Realidade Virtual, se lembrarmos do que diz Philip K. Dick. Num texto instigante, intitulado "minha definição sobre ficção científica", o mestre do gênero se pergunta sobre o que ela pode ser: "Antes de tudo, temos um mundo fictício; uma sociedade que não existe de fato mas que é decorrente de nossa conhecida sociedade -- isto é, nossa conhecida sociedade atua como um ponto de partida para ela; de certo modo, a sociedade evolui a partir de nós mesmos., talvez ortogonalmente como ocorre na estória ou novela do mundo alternativo. É o nosso mundo deslocado por algum tipo de esforço mental do autor nosso mundo transformado naquilo que não é, ou ainda não é. Tal mundo deve diferir de algum modo do mundo dado e esse modo precisa poder suscitar acontecimentos que não ocorreriam em nossa sociedade __ ou em nenhuma sociedade conhecida do pressente e do passado. Deve haver uma idéia coerente envolvida no deslocamento; isto é, o deslocamento deve ser conceitual, não trivial ou estranho -- essa é a essência da ficção científica, aquele deslocamento conceitual dentro da sociedade que faz com que uma nova sociedade seja gerada na mente do autor, transferida para o papel, e a partir do papel se dê como um choque convulsivo na mente do leitor, o choque do desreconhecimento".


O ouvinte ( Leitor: Nota do A.) me perdoe tão longa citação; mas ela pareceu-me indispensável para nomear a operação que a existência da Realidade Virtual nos leva a fazer. Definindo a Ficção Científica, Philip K. Dick descreveu um processo muito semelhante ao da criação do mundo da Realidade Virtual; e ao mesmo tempo, ao explicar porque o deslocamento conceitual é a essência da Ficção Científica, ensinou como captar esse mundo: Registrando o choque do desreconhecimento e atentando para a diferença entre o nosso mundo e o mundo ciberespacial.


A realidade Virtual existe como uma espécie de mundo alternativo povoado por avatares. Aceitar tal premissa já é sentir o impacto, o choque do desreconhecimento; de repente é como se tivéssemos voltado a ser homens primitivos, acreditando em mundos paralelos. O superego reage, insistindo que isso é alienação; mas se nos submetêssemos à injunção do superego, e desqualificássemos nossa percepção, perderíamos a oportunidade de explorar o mundo ciberespacial em sua diferença. Assim, em vez de descartar o estranhamento, talvez seja melhor suspender o julgamento e se entregar ao deslocamento conceitual.


Suponhamos então que o mundo da realidade virtual é um mundo de ficção científica, que está se concretizando como mundo paralelo dentro do nosso. O que isso pode significar? Primeiro, que a boa ficção científica pode, na verdade, ser literatura de antecipação; e segundo, que a antecipação na ficção científica corresponde ao modo como o processo tecnológico se dá inicialmente durante a fase da invenção, antes de se concretizar de todo e passar a se incorporar enquanto realidade incontornável. Com efeito, tudo se passa como se a invenção literária da ficção científica e a invenção tecnológica da Realidade Virtual obedecessem a dinamismo análogos de antecipação, só diferenciando-se em seus modos de expressão


-- pois ambas realizam um condicionamento do presente pelo futuro, pelo que ainda não existe. Ambas operam uma influencia do virtual sobre o atual. Como afirma o filósofo das técnicas Gilbert Simodon, "A invenção é uma apropriação do sistema da atualidade pelo sistema das virtualidades, a criação de um sistema único a partir desses dois sistemas.


*** *** ***


O mundo alternativo da realidade virtual não é, no entanto, o primeiro mundo fictício inventado pela tecnologia. Comentando o impacto da mídia sobre a sociedade contemporânea, Gianni Vattimo, em "A sociedade transparente", observa que a proliferação de fantasmagorias pelo cinema, TV, rádio e vídeo suscitou uma tal erosão do próprio "princípio de realidade", que hoje para nós, a realidade é mais o resultado do cruzamento da contaminação das imagens, das interpretações, das múltiplas reconstruções que a mídia distribui. Portanto, antes mesmo que o mundo alternativo da realidade virtual adviesse, o princípio de realidade entrara em crise -- como se fosse necessário primeiro explodir a visão do mundo em múltiplas visões de mundo; e só num segundo momento fazer surgir a Realidade Virtual, como uma ampliação da realidade.


O fato é que no mo o mundo fictício da mídia, o mundo alternativo da realidade Virtual está se instalando no mundo, e se infiltrando entre nós e o mundo. Mas em vez dele aterrissar em nosso espaço, como imagens da televisão, muito ao contrário parece que somos nós que mudamos de dimensão.... e, ao mudarmos, mutamos. Por enquanto só uns pouco privilegiados como os usuários da INTERNET e os freqüentadores dos cafés da moda, em Paris, que se encontram para partirem em "viagem" virtual a bordo de seus visores; mas quando milhões de consumidores do mundo inteiro tiverem acesso a essa tecnologia, a mutação deixará de se constituir em exceção, para tornar-se norma. E a realidade virtual vai tornar-se uma realidade para muita gente. A pergunta que se coloca então é: Como vai ficar a nossa velha realidade, a realidade de nosso espaço habitual, em permanente contacto com a realidade virtual, a realidade do ciberespaço?


O Escritor de ficção científica William Gibson, que inclusive cunhou a expressão ciberespaço, mostra, em Neuromancer e Virtual Light, a profusão de espaços e tempos que se sucedem e se alternam quando a mente e corpo passam a experimentar a mudança de dimensão. A relatividade do espaço-tempo se impõe na experiência quotidiana, e com ela, uma grande mudança de perspectivas. Se podemos ser "outra pessoa", como diz Makito Ito, e se podemos ser tantas outras pessoas quantas quisermos, teremos perspectivas diferentes. E quem poderá afirmar que uma delas é mais adequada para a apreensão da realidade? Quem poderá garantir que esta é mais realista do que outra? Em nome de que?


A apropriação do presente pelo futuro, está nos transportando para um espaço tempo relativo, espaço tempo da invenção. Agora já em diferentes dimensões. A realidade ampliada desloca nossa realidade habitual, relativiza-a, abrindo-nos possibilidades novas -- que podem se boas ou ruins, mas serão certamente diferentes do que já experimentamos.


A relatividade do espaço tempo da experiência quotidiana mina as nossas certezas a respeito da validade dos critérios a partir do qual nos guiamos. O mundo atual passa a ser tão real quanto o mundo virtual? Ou é o mundo virtual que passa a ser tão real quanto a atual? A questão nos encerraria numa reflexão infinita, tão infinita quanto a imagem de dois espelhos colocados frente a frente. A questão está mal colocada, porque polariza os mundos e só os diferencia negativamente, subordinando a realidade de um ao do outro. Na verdade, se pensarmos que o mundo atual e o mundo virtual são como dois tempos diferentes que se tornam contemporâneos, encontraremos um novo prisma a partir do qual; procuraremos entender o advento da Realidade Virtual: entre o presente e o futuro. Nesse intervalo, a partir dele, talvez seja possível captar o sentido da transformação.


*** *** ***

Tudo se passa como se, graças ao fantástico desenvolvimento da tecnologia, nosso velho mundo atual estivesse sendo progressivamente abandonado em troca do mundo da Realidade Virtual. A crônica das aplicações a eletrônica, da informática e das telecomunicações é um registro dessa espécie de transferencia que setores inteiros da produção e da vida social; estão empreendendo rumo ao ciberespaço. Cada vez mais empresas e indivíduos lidam com dados, informações e imagens que circulam pelas redes e fazem disso sua atividade principal. Mas, excluindo-se os militares, nenhum setor da sociedade instalou-se tão intensamente no ciberespaço quanto o setor financeiro. A própria unificação dos mercados num mercado global não poderia ter ocorrido sem o desenvolvimento das tecnologias da informação.



O sistema financeiro internacional mudou-se para o ciberespaço, e, talvez seja por isso que o mundo esteja sofrendo de grande instabilidade financeira. Diversos indícios apontam nessa direção. Antes de mais nada, cabe salientar que a transferencia se manifesta mais visivelmente como desinteresse pela produção material e desistência do investimento produtivo: em cada 70 dólares que trocam de mãos nos mercados cambiais globais, só um paga por um comércio de bens e servidos; muitas das maiores transações são especulativas: é que os investidores tentam tirar vantagens de pequenas diferenças nas taxas de cambio ou de pequenas diferenciais nas taxas de juros, medidos em frações de percentagens de ponto. Por isso há especialistas pensando que a circulação do chamado Hot Money 24 horas por dia nas redes digitais determina muito mais o valor das moedas nacionais do que os desequilíbrio comerciais.


Outro indício a assinalar a transferencia do sistema financeiro para o ciberespaço é a contratação de doutores em matemática e até astrofísicos que chegam a ganhar 1 milhão de dólares por ano para produzirem os chamados derivativos produtos financeiros vendidos nos mercados futuros por bancos, fundos e corretoras que especulam com moedas, bônus e ações. Na verdade, como observa John Plender, os derivativos não são comerciados num mercado real: "Não há um mercado real. Há em seu lugar, complexas valorações feitas por computador baseados em conjecturas sobre probabilidades, volatilidade e custos futuros".


O mega especulador George Soros, que em 1992 ganhou bilhão de dólares apostando contra a libra, explica em seu livro "The alchemy of finance - reading the mind of the market", concebe o mercado financeiro e porque tem tanto sucesso nele. "(...) minha abordagem tem mais êxito na lida com o s mercados financeiros do que com o mundo real. A razão se explica per si própria: Os mercados financeiros funcionam imperfeitamente como um mecanismo para a predição de acontecimentos no mundo real. Sempre há uma divergência entre as expectativas prevalecentes e o curso real dos acontecimentos. O sucesso financeiro depende da habilidade de antecipar as expectativas prevalecentes e não os desenvolvimentos no mundo real. Mas (...) minha abordagem raramente produz predições firmes até mesmo sobre o curso futuro dos mercados financeiros; ela é uma moldura para entender o curso dos acontecimentos quando eles se desdobram. Se ela tem alguma validade, é porque a moldura teórica corresponde ao modo como os mercados financeiros operam. Isso significa que os próprios mercados podem ser considerados como formulando hipóteses sobre o futuro então submetendo-as ao teste do curso real dos acontecimentos.


As hipóteses que sobrevivem ao teste são reforçadas; as que fracassam, são descartadas. A principal diferença entre os mercados e eu, é que os mercados parece se enganjar num processo de ensaio e erro sem que os participantes tenham entendido complemente o que está ocorrendo, enquanto eu o faço conscientemente. Talvez seja por isso que minha performance é melhor do que a do mercado".


O comentário de soros deixa evidente o deslocamento do sistema financeiro e a transformação do mercado financeiro global num gigantesco cassino, onde quem ganha não é quem consegue prever o que vai acontecer, mas sim antecipar as expectativas que vão prevalecer face ao desenrolar dos acontecimentos. Por isso, a industria dos derivativos é o reino dos modelos e das simulações cujas arquiteturas são tão complexas que as vezes nem mesmo o designer tem completa certeza dos riscos envolvidos para o comprador ou para o vendedor. Um exemplo do grau que essa complexidade pode alcançar é o invocado pelo brasileiro Flavio Bartman, uma das estrelas da corretora Merril Lynch em Londres: o ponto alto de sua carreira até agora foi justamente a elaboração de uma proposta recomendando a uma outra instituição financeira a criação de uma unidade para negociar derivativos. A proposta, que procurava demonstrar através de gráficos, regressões e fórmulas matemáticas os riscos de diferentes portfólios em diferentes cenários, foi executada por uma rede de 32 computadores trabalhando durante uma semana para fazer os cálculos. Capital, quadros de tecnologia não faltam p[ara a elaborações de modelos, simulações e cenários para a industria de derivativos; como diz Leo Melammed, o pai fundador dos mercados financeiros futuros de Chicago, "fora das trocas formais o espaço para crescer só é limitado pela imaginação".


A indústria dos derivativos se desenvolveu na década de 80, em resposta a dois dos maiores problemas dos bancos: a perda de clientes das grandes corporações depois da crise da dívida do Terceiro Mundo ao golpe na lucratividade de seus negócios tradicionais em virtude da globalização dos mercados, da rápida mudança tecnológica e da desregulamentação financeira em todo o mundo. É o que dizem os especialistas, esquecendo-se, porém, de acrescentar que a fusão da informática com as telecomunicações viabilizou a unificação e a homogeneização do espaço econômico global, e que só a partir de então foi possível esquadrinhar eletronicamente esse espaço e nele rastrear os riscos e recursos que possam gerar valor.


Através da indústria de derivativos, o sistema financeiro global despede-se do mundo atual e ruma para o mundo virtual, o mundo futuro, da invenção e da antecipação. Como se a riqueza estivesse abandonando a matéria e a energia, passando a valorizar eminentemente a informação. Informação que deve ajudar a decifrar o futuro dos mercados e, em conseqüência, contribuir para a tomada de decisões no presente. De modo significativo, escreve McKenzie Wark, os mercados futuros se desenvolveram primeiro para mercadorias agrícolas, e mais recentemente para instrumentos financeiros e títulos. O primeiro é o produto da natureza transformado num fluxo de mercadorias abstratas, quantificadas; o segundo é o produto do capital transformado num fluxo de informação abstrata, quantificada. O primeiro ocorre quando o mapeamento do mercado chega a cobrir o território, o segundo quando o mapeamento suplanta o território e o subordina ao mapa.


É interessante notar que essa transferencia para o ciberespaço coincide com a crise da dívida do Terceiro Mundo. Parece até que esta favoreceu a o surgimento da indústria de derivativos. Com efeito, a crise da dívida foi "resolvida" convertendo-a em um novo tipo de mercadoria, um comodity abstrata que pode ser negociada sob a forma de papeis, cuja existência de certo modo independe de suas conexões com projetos e ativos da esfera econômica. Mas não era só a dívida que poderia ser "securitizada", para usar o jargão dos especialistas; no limite, qualquer forma de crédito pode sê-lo porque qualquer forma de crédito é antecipação de um processo por vir. Sob a forma de títulos, que os anglo saxões denominam "seguranças" segurities, a antecipação da dívida e do futuro passou então a ser negociada.


Ora, como observa McKenzie Wark, um título desses é num certo sentido, a mais abstrata, a mais desmaterializada das mercadorias. Seu grau de abstração, e daí sua utilidade, repousa por um lado em seu caráter negociável, e por outro em sua segurança. Esta é sua estranha tensão: a security deve ser ancorada ao máximo em ativo tangíveis na esfera econômica e ao mesmo tempo negociável na esfera ciberespacial. Quanto mais líquida e segura é a security, mais ela pode ser prontamente negociável nos mercados; quanto mais liquida e segura maior e o valor de uso, o valor de uso particularmente abstrato da segurança e da permutabilidade. Wark conclui: "Pode-se dizer que esta é a mercadoria pos-moderna por excelência, pois sua utilidade consiste apenas na sua possibilidade de ser negociada por alguma outra coisa. Uma mercadoria cujo derradeiro valor é ser um outro valor".


Nas telas dos computadores, as posições dos derivativos mudam a cada minuto, o futuro modelando o presente. A evolução dos valores reflete evidentemente os riscos e recursos que transitam no espaço econômico, no mundo das mercadorias; mas reflete tão ou mais, o que se passa nas redes digitais porque estas produzem uma imagem dos mercados em constante mutação, imagem que por sua vez afeta os valores dos papeis ao permitir a imediata comparação da performance de cada um com a de todos os outros, suscitando reavaliações, depreciações e valorizações.


Nas telas dos computadores a imagem dos mercados vai estampando a contínua construção de uma outra espécie de mercado, o mercado ciberespacial, que atrai cada vez mais os capitais do mundo inteiro, lá onde se organiza em função das exigência da imagem. De tal modo que o mercado não é mais aquele espaço onde os valores foram criados e negociados, é este outro espaço no qual os valores foram transferidos de uma percepção a outras. Como escreve Wark, "é propriedade privada numa forma mais pura, destacada da substancia tangível, sensível, material, propriedade sem propriedades. É a propriedade privada mais fácil de ser privatizada porque lhe falta a forma substancial natural ou feita pela máquina.


*** *** ***


Soros portanto está certo ao concentrar seu olhar arguto sobre as expectativas que vão prevalecer, quando as telas dos computadores desenrolarem a imagem da evolução do mundo econômico real. Para ganhar, o especulador tem de ser especulativo, tem, de interrogar a imagem e compreender o ponto de vista que ela suscita em relação ao real. -- Método que Soros denomina "Teoria da Reflexividade".


Os valores foram transferidos de uma percepção a outra. Doravante é preciso compreender essa diferença. O capitalismo passa a privilegiar o imaterial, e o que é simbólico como se diz, torna-se economia sublime. E isso faz toda a diferença. Não é atoa que a característica principal do mercado financeiro global é a volatilidade, por todos reconhecida e temida, e da qual já deram mostras o crash nas bolsas de 87, a evaporação de mais de seis bilhões de dólares no ano passado... e agora a crise no México. Na transferência de valores de uma percepção para outras, a riqueza se volatilizou ao passar a ser informação.


É preciso ir a New York, a Londres ou a Tóquio para se ter uma idéia de como a volatilização da riqueza afeta a vida das pessoas e das cidades. Quem nelas mora, trabalhando ou não (porque o desemprego e o subemprego são crescentes), vive nesse intervalo entre o futuro e o presente, entre o espaço virtual e o espaço real, por onde circula a riqueza em vias de volatilização. Vive-se no intervalo, mas de modo diferente, segundo se está em Wall Street, ou debaixo da ponte em Brooklyn. Global City, o livro de Saskia Sassen sobre a ruptura que se está operando nessas três cidades a partir da hegemonia do mercado financeiro global, é um ótimo registro da precariedade que está tomando conta do mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que a instabilidade toma conta do mundo do capital.


Embora começasse considerando o processo sob uma perspectiva urbana, Sassen logo percebeu que a óptica deveria ser no mínimo interurbana, isto é, procurasse enfocar a questão não do ponto de vista do chão mas do satélite ou, melhor ainda, da rede digital. Vistas de lá, New York, Londres ou Tóquio se mostram de modo muito diferente, como cidades que tendem a se transformar na cidade global. Nesta, cada uma das cidades se especializa num dos três grandes momentos que pontuam a realização dos investimentos globais: Tóquio, emerge como principal centro de exportação de capital; Londres, como principal centro de processamento, através dos euromarkets e de sua vasta rede de bancos internacionais, ligando a cidade à maioria dos países; e finalmente New York, emergiu como o principal receptor de capital, centralizando as decisões de investimentos e a produção de inovações que podem maximizar a lucratividade. A cidade global é portanto, uma cidade no ciberespaço geográfico; e, como tal, vive num espaço tempo relativo no qual o que acontece no horário comercial local é sempre referido ao que acontece no horário comercial dos outros centros, fazendo com que o capital, como as informações, gire e se transforme 24 horas por dia.


*** *** ***

Nosso velho mundo atual está sendo progressivamente abandonado pelo mundo da realidade virtual. Transferindo os valores de uma percepção para outra, o sistema financeiro global mostrou que se transferiu para o ciberespaço. Os demais setores já procuram acompanhar, tentando acessar o mundo alternativo. Quando não só nossas mentes, mas também nossos corpos começaram a experimentar quotidianamente a mudança de dimensão, talvez descubramos que, sem perceber, já estávamos vivendo numa outra sociedade.



Do Calor da Utopia à Frieza da Ciência - Datilografada


O calor da utopia e a frieza da ciência

(Leandro Konder - sem data/datilografado)

Qual poderá vir a ser o papel das utopias no começo do próximo milênio?
Qual espaço lhes será reconhecido pela produção cultural?
Que funções assumirão o pensamento político
?

Uma primeira dificuldade com que nos defrontamos ao tentar responder a essas questões, tem a ver com o conceito de utopia. Os autores que se servem do termo não lhe conferem o mesmo sentido, não lhe atribuem a mesma acepção. Utopia é sem dúvida, o "não lugar", o lugar inexistente. Mas é um lugar destinado a permanecer sempre fora do nosso alcance, falando à nossa imaginação. Ou se trata de algo que ainda não existe, porém pode vir a se concretizar em decorrência de nossas ações? Em que medida utopia é um sonho irrealizável e, a partir de que ponto passa a ser o sinal de uma realização possível ?

A história da utopia como gênero literário começa com uma obra que manifesta a ambigüidade inerente às construções utópicas: A Utopia de Thomas Morus, é ao mesmo tempo, a expressão de um vigoroso inconformismo e de uma insuperável sensação de impotência. Em suas páginas se acha a denúncia da exploração classista na Inglaterra do renascimento, se encontra o aceno a uma possível sociedade sem propriedade privada, mas se acha também a idéia resignada de que essa sociedade mais justa seria uma sociedade altamente autoritária, rigidamente hierarquizada e baseada no trabalho escravo. A comunidade idealizada da ilha da Utopia cobrava um preço altíssimo pelo bem-estar e pela segurança de seus cidadãos, imiscuindo-se em suas vidas privadas, impondo-lhes normas de conduta que determinavam até o tipo de roupa que deveriam usar.

Um século depois da Utopia, de Morus, foram escritas duas fantasias inequivocamente inspiradas por ela: A Nova Atlântica, de Francis Bacon, e a Cidade do Sol, de Tammaso Campanella. Em ambas, volta a se manifestar a ambigüidade intrínseca da utopia como gênero. Por um lado a profunda insatisfação com a situação existente, com a organização da sociedade, com ideologia dominante e pensamento institucionalizado; por outro lado, a reprodução de critérios comprometidos com a ideologia contestada e com a estreiteza de horizontes da sociedade que estava sendo recusada.

No início do século XIX, as situação já era bastante diversa daquela que se manifestava na Utopia do século XVI, e nas utopias do século XVII. No processo em que se preparou e desencadeou a chamada revolução industrial, constituiu-se uma nova classe social formada por uma massa de trabalhadores urbanos reunidos em manufaturas ou em fábricas. E essa massa proletária, com sua presença compacta, acabava por influir nos caminhos da imaginação de alguns intelectuais.

O conde Henri de Saint-Simon, se preocupava com os trabalhadores. Impressionado com o que pode observar nos Estados Unidos da América do Norte (então em formação), o aristocrata pregava reformas que deveriam criar na França uma sociedade sem ociosos, com todos os cidadãos trabalhando animada e por um incessante progresso tecnológico. Em seus últimos anos de vida, o inquieto pensador francês atribuía utopicamente a um renascimento do espírito do cristianismo primitivo a tarefa de arregimentar os operários e as mulheres, em aliança com os comerciantes e banqueiros, para reformar os costumes e as instituições.

Outro francês, Charles Francois Fourier, discordava de seu compatriota; para ele, a sociedade não poderia sofrer nenhuma transformação realmente profunda por meio de movimentos religiosos ou através de revoluções políticas. Decepcionado com a estreiteza da revolução francesa, Fourier dedicou suas energias à concepção de um "falanstério", de uma comunidade ideal, instalada num lugar adequado para 1.800 pessoas, que demonstraria na prática aos seres humanos em geral como eles poderiam viver melhor, num quadro de relações mais justas e desfrutando de maior felicidade. Para Fourier, as grandes vítimas da civilização -- os operários e as mulheres -- deveriam constituir uma vanguarda na realização das mudanças.

Os anseios de progresso e operosidade, o sentimento de revolta contra o parasitismo, a insatisfação relativa às terríveis condições de trabalho e remuneração, a falta de uma perspectiva imediata de melhoras significativas, tudo isso tornava a massa trabalhadora receptiva ao sonho de uma nova vida. E as expectativas e aspirações desse recém formado proletariado industrial estimulavam as utopias de Saint Simon e de Fourier a se inserirem, muito mais resolutamente que as de Morus, Bacon e Campanella nos esforços de numerosos homens empenhados em fazer história. Nessas condições, no início do século XIX, as novas utopias, mais do que apontar para uma nova possibilidade no espaço (um "não lugar"), apontavam para uma nova possibilidade no tempo: Uma sociedade ideal futura.

Na passagem da primeira para a segunda metade do século XIX, tornou-se cada vez mais marcante a ação de Marx e Engels, que propunham idéias diferentes das de Fourier e Saint Simon. Marx e Engels consideraram as utopias como expressões legítimas dos anseios nascentes do socialismo moderno, mas também como manifestação de imaturidade. Para eles, o socialismo precisava ser mais "realista" e se apoiar em conhecimentos mais sobriamente "científicos". Engels, chegou a fazer imenso sucesso com um texto de sua autoria intitulado: "Do socialismo Utópico ao Socialismo Científico".

Os dois pensadores alemães conseguiram, de fato, substituir na consciência de muitos ativistas do movimento operário, algumas fantasias ingênuas e sonhos românticos por concepções mais eficazes no plano das atividades, do trabalho organizativo e das reivindicações e lutas. Coube-lhes o mérito de limitar as conseqüências dos ímpetos utópicos nos exageros de uma denúncia "desmoralizadora" da burguesia (reconhecendo o vigor da atuação da classe burguesa nas modificações da sociedade) e, ao mesmo tempo, ambos tiveram a lucidez de indicar para o movimento operário e as ações das massas caminhos praticáveis, ao longo dos quais os próprios trabalhadores poderiam ir se desenvolvendo, aprendendo a identificar e avaliar seus adversários, negociando com eles e enfrentando-os em condições mais vantajosas.
Cometeríamos uma rematada insensatez se ignorássemos as vantagens conquistadas pelo ponto de vista de Marx e Engels em relação aos pontos de vista de Saint Simon ou de Fourier. Devemos contudo, tomar cuidado para não acreditar que, em decorrência dessas vantagens, a posição "científica" de Marx e Engels eliminou como supérfluo ou totalmente contraproducente a utopia do socialismo.

Para percebermos a persistência de elementos utópicos no próprio Marx, basta atentarmos para as características do "comunismo", tal como ele o concebe: Uma sociedade sem estado, sem fronteiras, sem classes sociais, sem divisão entre cidade e campo, sem divisão entre trabalho físico e trabalho intelectual; uma sociedade na qual a moral absorve o direito e as necessidades religiosas desaparecem da alma dos homens. Quem hoje em dia ousaria sustentar, impavidamente, que não há nada de utópico nessa concepção de "comunismo"? Quem negaria o cheiro da utopia na idéia de que no comunismo não haverá especialização profissional e cada pessoa no seu quotidiano poderá ser alternadamente médica, astrônoma, pintora, pescadora, etc ?

Em sua maioria os principais dirigentes e ativistas do movimento socialista de inspiração "marxista" no final do século XIX e na primeira metade de século XX, não levaram em conta essa persistência da dimensão utópica na perspectiva dos geniais fundadores do "socialismo científico". A literatura dos "marxistas" produzida ao longo desse período, com raras exceções, não manifesta muita sensibilidade em relação à utopia.

Os "marxistas" herdaram de Marx a convicção de que a utopia, por um lado, fortalecia a inumanidade do presente, mas, por outro, atrapalhava os esforços dos lutadores para identificar os focos de resistência à mudança e para combater os inimigos concretos do projeto transformador. Segundo Marx, a utopia, a partir de um certo momento, passava a acarretar uma subestimação das tarefas que os ativistas políticos precisavam executar para articular os movimentos dos vários setores da sociedade.

Ao retomarem a desconfiança de Marx em face dos utopistas, entretanto, os "marxistas" se defrontam com circunstancias históricas que se tornavam cada vez mais diferentes daquelas em que o autor do Capital elaborava seu pensamento altamente original. Os "marxistas" eram levados a inserir sua condenação à utopia num sistema codificado (o "marxismo"), julgando-a de acordo com os postulados de uma doutrina constituída. Em Marx, a avaliação das ambigüidades da ação dos socialista utópicos estava ligada às vicissitudes de um movimento socialista recém iniciado, onde tudo era muito novo; era uma avaliação enérgica, mas bastante expontânea. Nos "marxistas", o veredicto sobre os males da utopia decorria da mera explicação de um quadro de princípios consagrados, expressão de um patrimônio teórico e político que deveria ser preservado a qualquer custo.

O ponto de partida de Marx era "uma metralhadora giratória": Ele preconizava "uma crítica sem consideração de espécie alguma a tudo que existe". Os "marxistas" do século XX, criticavam o "capitalismo", o "imperialismo", porém tomavam muito cuidado para não danificar o "campo socialista", os "movimentos de libertação nacional", as "democracias populares", os "partidos de vanguarda do proletariado".

Houve sem dúvidas exceções. E é interessante observarmos que no campo do pensamento da esquerda foram os pensadores que nadaram contra a correnteza, que pagaram o duro preço do isolamento, que nos proporcionam hoje, no final do século, após a derrocada da União soviética elementos instigantes para empreendermos uma nova reflexão sobre o papel da utopia e dos anseios de transformação da sociedade.

Vários nomes nos vem rapidamente à lembrança. Lukacs, de História e Consciência de Classe, por exemplo, com sua concepção utópica de um movimento operário capaz de realizar o sonho hegeliano do sujeito-objeto idêntico. O Horkheimer que teorizava sobre a verdade refugiada num pequeno grupo de intelectuais rebeldes, zeladores do pensamento crítico. Walter Benjamim, que nos lembrava que "cada segundo é a porta estreita por onde o messias pode entrar". Com todos seus eventuais exageros, esses filósofos contribuíram e ainda contribuem: Para o revigoramento das iniciativas daqueles que procuram extrair as conseqüências da constatação de que o capitalismo não vai morrer de morte natural (a sua superação depende de nós).

A utopia é um ingrediente essencial desse revigoramento. E quem formulou essa idéia mais incisivamente foi, com toda probabilidade, o filósofo Ernest Bloch. Nada mais justo, então que encerremos com o autor do "Princípio Esperança" nossa sumária abordagem do tema da vitalidade da utopia no começo do novo milênio. Bloch propõe um conceito bastante amplo de utopia. Para ele, a dimensão utópica no pensamento é a expressão de uma força real que exige a superação, a "transcendência" do que está explicitado e construído no presente. Segundo o eloqüente pensador alemão, somos seres "carentes", precisamos de algo que não temos, e essa é a origem de uma "consciência antecipadora" que nos caracteriza. A utopia está ancorada nessa consciência antecipadora e pode ser dividida em "utopia concreta" e "utopia abstrata". A utopia concreta possui um ímpeto "subversivo" e já nasce comprometida com o anseio que os homens tem de se l libertarem das condições coisificadas em que vivem.

Na análise de Bloch, o "marxismo" tem uma "corrente quente" e uma "corrente fria". A primeira dá conta da aspiração apaixonada por transformar o mundo, incita ao entusiasmo, à luta; a segunda, refere-se à necessidade de avaliar com rigor científico as condições objetivas e as condições subjetivas em que os homens vivem e atuam. Essa observação de Bloch a respeito do "marxismo", a nosso ver, vale como um todo, quaisquer que venham a ser as formas por ele assumidas no início do novo século.

Parece-nos quase impossível imaginar uma esquerda eficaz que não dependa dessas duas correntes, a "quente" e a "fria". Quer dizer: Que não precise da Ciência e da Utopia. O pensamento de esquerda recordará a advertência do poeta Bertold Brecht, no epílogo da peça "Santa Joana dos Matadouros" :

"Duas almas moram / no teu peito humano, / nas entranhas tuas.
Evita o insano / esforço da escolha: / Precisas das duas
".

quinta-feira, 13 de abril de 2006

Pois,

Nº 1 - Ano !

Uma coisa é certa. Nunca o senador Pedro Simon teve tanta razão em vociferar contra os desmandos já havidos na história recente da república. E podemos reduzir o mundo à era pós Itamar. Nunca, às custas da história as verdades buscaram-se esconder com tamanha desfaçatez. E por fim, se desfaz a administração pública a se desfazer, perdida atrás de motivações sobre pais de caseiros, para terem suas vidas perquiridas - pelas motivações que tivessem. Mas no entanto o Poder de Estado lhe devassa sua vida financeira e tenta-lhe desacredita-lo com o sigilo revelado. Como se a por em dúvida que alguém pudesse ter pai em circunstâncias alheias ao interesse de ninguém - senão apenas para satisfação do pobre de espírito em economia política e aplicada. Pois nunca as impulsões sexuais estiveram na pauta oficial da república. Postas a administrar - também as finanças da República em nome de acordos e contratos secretos feitos com o FMI - certamente prazerosos para alguns mas, coisa que aos demais brasileiros se nega saber. E isso se chama administração de finanças públicas.
Resulta o País privatizado.

E para 385 pessoas donas de meio mundo. Ficção financeira só para isso. Desfrute do totem e custos sacerdotais pelo "spread" - coisa que Aristóteles sempre achou imoral pela própria natureza do parasitismo social agregado (como explicação de um "fetiche" econômico, seria a origem psicológica da "mais valia" marxista: valor passivo em trabalho no tempo, dissipado pela crença no "totem". A submissão patológica, sistemica, arquitetada como castigo dos deuses pela idolatria espelhada pela moeda em trânsito, a exigir o sacrifício humano: Tanatos dissipa (suga) energia biologica onde Eros está pesente. Alienação histórica a depurar). Enquanto isso os analistas da ficção financeira viram sacerdotes a falsificar explicações à cada esquina. Retratos do presente. Eis o tal do "mercado" e vossa civilização, diria um Extra terrestre, evidentemnte surpreso, crítico. Ou seja, observador isento a contemplar a humanidade e perguntrar o "porque" de tudo isso. Ora, sejamos francos. O Sr. (Dr.) Freud nos orienta no sentido de admitir nossas impulsões, reconhece-las desde sua origem depois de Darwin. Para nos conceber-mos hoje, massa, matéria, biologia, valor e potencia, enfim. Pois chegamos ao retrato do presente, como matéria aplicada ao sopro de Eros.

E depois, traduzidos em matéria e economica aplicada à la Tanatos, diriam os gregos, até mesmo para depois consituirem-se partidos políticos a comemorar com festas monetariamente freudinanas - tamanho sucesso em eleições. Claro, às custas do erário em festança continuada. De preferencia, sobre a potencia derrotada nessa primeira luta de classes em nome da qual se exerce o poder e se corrompe em moral pública, desnudado o "totem". Tal como soe demonstrado - se houvesse menos cinismo nas explicações.

Mundo freudiano, cheio de explicações econômicas.
(É onde por onde se concebe a necessidade da profunda revisão em crítica aos valores presentes ante o impasse do capitalismo tardio; pois a humanidade, agora para "sarar", deve postar-se - corpo coletivo - no divã no psicanalista para catarse geral. Haverá de identificar e remover patologias economicas históricas. Desfazer equívocos. Derrubar o totem. Substituir Tanatos. Libertar Eros, impulsor também econômico em moeda e valor energético acumulado. Restaurar o valor "vital" suprimido. Moeda de troca. Valor restaurado)

Ora, voltando à terra, e às condições onde as CPIs terão de esclarecer se o caseiro tinha pai ou se era então filho de quem, e ainda nessa crise de valores por onde se perdem governos de suas funções e, abstraíndo-nos para o mundo das massas ambulantes a mover economias, não é atôa que os franceses freuidianamente enre todas as motivações do mundo sempre peguntam: "onde está a mulher" - tanto quanto em nome das quais também se praticam crimes econômicos - e os ingleses sempre culpam o "mordomo" pela cumplicidade com alguma mulher? Isso não termina traduzido para o mundo como "teoria" aplicada ao mundo das comunicações vista pelas janelas do Dr. Habermas de hoje?

O Dr. Habermas - herdeiro da "escola psicanalítica" de Frankfurt? E por daí ao convencimento pelo mundo da mídia para haver peça de trabalho (escravo global) a mover a economia para "reis" e premiados - suzeranias afora? Incapaz, como no Brasil do Poder Público expor, saem toldar a razão o seu mais íntimo objetivo? Ora estamos em plena guinada linguistica, como diria o Drt. Habermas. E as guerras humanas na administração públicas devem ser outras.

Voltemos ao Brasil de hoje: condenado à escravidão ao capital financeiro. Sendo fiança o povo a crer nessa ficção de valor (a crermos no valor da moeda em unidade mineralizada, sob psique alienada de seu valor em espelho. Valor de troca. simbolo e expressão de energia em poder acumulado - medido sobre a força do trabalho que lhe confere somas emvalor - como civilização evoluida pelos motivos que antes). Pois eis: foto memorável, não pelo acaso - estampada na 1ªPágina do Jornal Folha de São Paulo (fig abaixo) . aqui no Brasil, o Sr. Ministro da Fazenda se curvava como se mostra na foto ao poderoso do FMI - analisada sua postura "etica" pela imagem (So para comparar "civilizações": segundo compêndios de história, antes da linguagem verbal, os "Arapexes" um dos povos mais primitivos sempre se entendiam pelos gestos. Reconheciaam-lhe a verdade ou a falsidade na expressão. Concebiam o mundo como um "jardim", onde o importante era que as crianças, o aipim e os porcos pudessem "medrar" - biologia aplicada. Reconheciam o mais poderos e se inclinavam). E estamos no ápice a da história onde o Sr. Bush joga bombas no Iraque à vontade (pois eis o motivo das guerras de hoje, no tal "ápice da civilização").


Afinal, já não se guerreou por causa da beleza de uma mulher às portas de Tróia?
(pelo menos, seria muito mais humana do que as guerras economicas do Sr. Bush contra teorias do Dr. Marx.)

Evidentemente basta ver-mos os motivos de hoje no Brasil-república, onde o poder está em disputa. Claro. Não bastam escândalos pequenos (só econômicos). É preciso a regressão à lei do mais forte, o esmagamento da choldra aquietada com migalhas do banquete financeiro-oficial (esmola em "bolsa família" eleitoral - pela mais elementar das comunicações). pois temos de de juntar os mais primitivos impulsos da psique para republicanamente explicar e responder por atos nas CPIs (ápice de civilização). Depois dos Arapexes de mundos ajardinados, imaginação colorida, biologia expressa, tivemos de inventar a civilização de quintais cimentados em disputas de metros quadrados de alienação da mais pura hostilidade.

E criamos tótens econômicos a coroar gestos coletivos da humanidade. Para poder-mos nos ajustar às forças da natureza circundante. E aí juntamos a necessidade agressiva da competição pela força bruta em busca da própria razão, a guerra de "todos contra todos" (bom dia Dr. Hobbes).

Pois mão é que em teorias de comunicação onde mais falam gestos do que palavraas, tivemos a mais corrompida expressão de poder em economia onde muitos se oprimem e poucos se beneficiam, traduzidas em gestos de dança. A mais corrompida das bio-danças (Freud desreprimido) contraposto ao gestual das mais primitivas reboladas de ilustre deputada na Câmara, da qual dispensemo-nos de citar o nome por ilustre demais. Em gestos que vistos em si - traduzem o espírito da posse sobre a vontade do outro (Freud neurotizADO) e prazer pelo ouro não dividido (Marx, oprimido). Sendo o resto, poder sem razão. Perversão da civilização. depois da qualk Caim matou Abel. E o resto virou "vil metal" - Ídolo. Fantasia. Finança aplicada.

Mas jamais razão capaz de ser exposta à luz do dia.
Da censura da civilização.
E aí inventamos a economia, para nos ajustar-mos em gestos ordenados de produção. E aí, ao que nos explica o Dr. Freud, nos explica o Dr. Marx. Taí pra todo mundo ver a última contradição (moral sistêmica, capitalista): quando operário troca a luta seduzido pelo prazer. E a escravidão operárioa continua. E sobre ela, sistêmicos verem-se eleitos ditos representates - elevados aos poderes da reública.
Abrirem-se depois os jornais. E verem-se letrados: os gestos mais obcenos já vistos nas cenas da república.
Ápice de história. Retrato de civilização.
Etapa de amadurecimento da humanidade em termos de "teoria de valor". Desafio presente a ser respondido para começarmos, a escolher caminhos. Por onde se descortina a "teoria do Desenvolvimento". Criativa ao presente.

Ah, sim. Não sei patavina de alemão



Certamente esses gestos não nos podem governar.
Haveremos de transcender caminhos.

* * * * *
Certamente o Dr. Márcio Thomas Bastos, o criminalista, será pessoa a quem devo o maior respeito. Mas está a mececer censura o ministro. Sua função é pública. E não pode agir em contrário em funão de interesses privados - que não ousam declara intenções em praça pública como se falassem por Freud. Mas como o Dr. Marx analisa em representação de poder de estado aplicado ao capitalismo, não pode comportar-se como criminalista como poder de Estado.

Onde a ética do interesse público não lhe permite compartilhar de situações inadmissíveis. E assim, juntamos a civilização - pelo primeiro contrato.

Pois presta um enorme serviço ao avanço do ideal socialista, difuso, de moral na administração da coisa pública adstrita ao interesse coletivo, dito marxista. Exatamente como a quer essa teoria; a qual, por sinal, dispensa a corrupção como matéria agregada - traduzida em "lutas de casse". A moralsocialista é poutra. é preciso dizer-se. O resto do que est´pa aí, que explique a moral capitalista pelo uso que faz em administração e poder.

Evidentemente, temos de construir outro País.

Atenciosamente
RaulFereira Bártholo

Pois,
_____________________________Convite à leitura, para mais contribuir:

Teses preliminares, Provas e Documentos - "Revisões sobre teorias de valor" em
http://raulbartholo.blogspot.com/(CC: UNICAMP - Prot. 26/10/2005/Reitoria - in:- Conferência Primeira - Carta Aberta (esse blogg sofreu ataque de hackes - os documentos serão repostos de volta no tempo - e para respostas a dúvidas sucitadas)

Retrato do Momento: Comentário livre acrescido sobre patologia sistêmica agregada de Freud à Marx, segundo Habermas e a mover-se omundo pela guinada da lingística;sendo especial interesse: Poder público (móvel de história) aplicado como Força (razão induzida) e Valor ( teorema indutor); sendo marxista a primeira revisãos de conceito pela recuperação da bio-energia indevidamente dissipadaàs custas de trabalho - valor medido à custa da "escassês". Escala em economia - política e aplicada; revisões em contribuição à Teoria do Desenvolvimento" em
http://retratosdomomento.blogspot.com/